A MALA VERMELHA
Tudo que você precisa saber sobre o álbum ilustrado de Eva Uviedo que trata de exílio e ditadura para crianças a partir de 6 anos
Sobre o que é o livro?
A protagonista, uma menina de uns nove anos, tem um cantinho onde se sente bem: sua casa, sua coleção de revistas, a bicicleta que ganhou no Natal, o melhor amigo dela, o Senhor Lobo. Tem rotina, almoços, tardes tranquilas. Uma família. Uma vida em curso.
Até que algo muda tudo. A paz que existe na casa deixa de existir no país, e algumas escolhas difíceis precisam ser feitas.
Este livro nasce do que foi vivido, do que foi interrompido, do que ficou para trás. É uma ficção baseada em fatos, pensada a partir do ponto de vista da criança que eu fui. Vim para o Brasil com meus pais para sair de um cenário de repressão e perseguição política durante a ditadura na Argentina. Meu pai, Juan Uviedo, era diretor de teatro, transgressor, subversivo. Minha mãe, atriz e cantora, trabalhava com ele e já tinha um histórico militante na Guatemala, seu país de origem. Ou seja, escapamos por pouco. E viemos para cá, uma terra que nos acolheu de uma forma tão plena que não quisemos voltar mais.
Então o livro fala de exílio, deslocamento e perda; mas também de imaginação, sobrevivência e invenção de uma nova vida.
Por que agora?
Há tempos eu já queria trazer essa dimensão política da minha história pessoal para meu trabalho artístico, e ficava pensando a melhor maneira de fazer isso.
A ideia de contar essa história como livro infantil surgiu quando conheci o trabalho Meu tio chega amanhã (Mañana Viene Mi Tío, 2014), do artista argentino-uruguaio Sebastián Santana Camargo; é uma história em que uma criança espera pelo tio que nunca volta. É de cortar o coração. E me fez perceber: é possível falar desse tema com crianças. Mais do que possível, é necessário.
Porque o problema do exílio, hoje reconhecido como uma violação aos Direitos Humanos, ainda é muito presente no mundo. Na verdade, cada vez mais. Guerras, perseguições politicas, crise climática, questões econômicas - hoje, mais de cem milhões de pessoas vivem fora de seus lares contra sua vontade; e mais da metade são crianças.
50 anos do Golpe Militar na Argentina
O livro chega em uma efeméride importante: neste 24 de março se completaram 50 anos desde o Golpe Militar da Argentina (1976-1983), que deu início à ditadura mais sangrenta da América Latina - são mais de 30 mil mortos e desaparecidos.
O país infelizmente vive tensões similares às de cinquenta anos atrás: crise econômica, greves, repressão a manifestações. Houve um enorme avanço em processos de memória, com julgamentos e políticas de reparação, mas ainda existe muito negacionismo, muita disputa em torno dessa história. A luta não pára: as Abuelas de Plaza de Mayo seguem se reunindo toda semana em busca de informações sobre os desaparecidos e em busca dos cerca de 250 a 300 netos que ainda podem viver sem saber quem são.
E muitos filhos e filhas de exilados, hoje na casa dos 40 ou 50 anos, estão revisitando a própria infância. Coletivos como o Hijas y Hijos del Exilio têm se juntado, em vários países da América Latina, para tornar visível essa experiência e dar nome ao que aconteceu.
A Mala Vermelha vem pra somar e fazer parte dessa conversa, que diz respeito a todos.
Para quem é esse livro?
Honestamente, acho que para todas as idades. Livros ilustrados não são só para crianças; cada vez mais autores e editoras apostam nesse formato para falar de temas complexos com qualquer leitor. A imagem e o texto juntos criam uma linguagem que pode ser ao mesmo tempo simples e profunda.
Sou fã e inspirada por autores como Odilon Moraes, que trata de temas delicados como morte, violência, separação; de livros como O Pato, a Morte e a Tulipa, do alemão Wolf Erlbruch; de Sinna Mann, que aborda violência doméstica e O Cabelo da Mamãe sobre a depressão materna, ambos dos noruegueses Gro Dahle e Svein Nyhus; Memória de Elefante, de Paula de Santis e Fereshteh Najafi, sobre a degeneração cognitiva na velhice. E também livros como Inspire e Expire, do chinês Hu Yifan, que é um convite à contemplação e à pausa. Tudo isso pode ser adequado para crianças e adultos.
A Mala Vermelha é indicado para leitores a partir de 6 anos, mas acho que adultos vão gostar também. E mesmo sendo um contexto histórico específico, o livro fala de experiências que muitas crianças (e adultos) conhecem: mudar de lugar, deixar amigos, começar de novo.
Se ele ajudar a abrir conversas sobre deslocamento, memória, ditadura e direitos humanos, já terá cumprido seu papel.
Beijos,
Eva
→ O livro A Mala Vermelha está à venda no site da editora e em livrarias em todo o país: https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786554851770/a-mala-vermelha
→ Já leu? Comente embaixo :)
PARA SE APROFUNDAR
leia, ouça, veja
Em entrevista à Quatro Cinco Um, falei sobre a experiência de exílio como matéria narrativa e os efeitos íntimos da ditadura militar argentina (1976-1983). Leia entrevista completa aqui (para assinantes).
Como nasce um livro? Fui contando ao longo dos últimos textos aqui no Substack. Escrevi sobre minha paixão por picture books e a importância do silêncio na narrativa; sobre a febre da autoficção e a construção da memória; a problemática de crescer no exílio; os traumas silenciosos, e até minha tortuosa vida cambaleando entre classes sociais por conta desse desterro. Neles tentei destrinchar as perguntas que deram início ao processo de criação: como ilustrar o que foi silenciado?
No instagram, mostrei um pouco como era minha família na Argentina e algumas fotos que inspiraram os cenários do livro.
Montei um passo-a-passo das etapas de criar um livro-álbum, do primeiro rascunho até a publicação.
Falei dos 50 anos da Ditadura Argentina e de como isso se relaciona ao meu trabalho de pesquisa artística e ao livro A Mala Vermelha.
Spin off: Meu pai Juan Uviedo, a figura oculta dessa história, é um capítulo à parte. Mas para saber mais sobre ele, sujeito irremediavelmente contestador, criativo, provocador; suas aventuras e desventuras, seu histórico de pária, expulso de países como Espanha, Portugal, EUA, México, Guatemala; criei um site para reunir dados, imagens, biografia: https://juanuviedo.wordpress.com/
E MAIS
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E conheça mais do meu trabalho aqui: https://evauviedo.com.br/







Parabéns! Seu livro parece incrível! Me deixou muito interessada!
Eva, adoramos seu livro (eu e minha pequena de seis anos); a dúvida dela é se você conseguiu reaver o senhor lobo….beijos!