A perplexidade é silenciosa
Sobre exílio na infância e outras dores que não fazem barulho
Eu sei, e você sabe, que às vezes a gente vive algo extremamente difícil sem que o sofrimento vire assunto. Pode ser por achar a dor pequena demais, por ter se virado, ou por ter aprendido a minimizar. Supera, ri, segue em frente. É uma estratégia de sobrevivência que a maioria de nós usa.
Às vezes é uma mudança forçada de cidade, de país, um recomeço inesperado. Às vezes é perder tudo e ainda assim ouvir que “poderia ter sido pior”. Nem toda aflição vem acompanhada do som de sirenes.
Mais aborrecida que sofrendo
A ideia de falar sobre isso veio de uma leitora que respondeu ao último texto com o comentário: “Que desafio recuperar sua perspectiva de criança, abordando com a linguagem da leveza uma travessia tão densa”. E respondi que, na verdade, o desafio foi dar o peso que o contexto merece, sem perder a leveza do que foi.
No processo de criação de “A Mala Vermelha”, recebi uma ou duas sugestões que tornariam o texto mais dramático, para intensificar certas cenas. Nada de mais, um sinal de exclamação, uma frase mais enfática. Mas a experiência que eu queria narrar não tinha esse tom.
Por pior que seja o fato - e sim, quero somar minha voz à que reivindica que exílio é uma violação de direitos humanos, uma violência do Estado contra indivíduos, famílias e crianças - o recorte que narro no livro, o dia em que fomos embora, não aconteceu com um peso esmagador. Violência simbólica é o tipo de coisa que afeta a longo prazo. Sabe aquele filme de terror que você assiste e na hora tudo bem, mas depois fica lembrando?
A personagem está mais aborrecida e apreensiva do que sofrendo. O ar geral não é de tragédia, mas o contexto tenso está lá: nas marcas de botas, na despedida, no assombro, na incerteza. O desafio era manter esse equilíbrio delicado de reconhecer e expor o peso do exílio e da ditadura, sem perder a perplexidade infantil, que é como eu senti, e acho que é como as crianças sentem as coisas na maioria das vezes.
Os pais se esforçam para não deixar que o drama transpareça. Talvez seja esse cenário que alimenta o mito da “gaiola dourada”. Como reclamar, se foi exilado para a França, para a Suécia, para a Austrália? E eu, que vim para o BRASIL, do que posso reclamar? Como reivindicar dor quando outros ficaram, foram presos, torturados, desapareceram? A gente tende a medir as coisas assim, e é legítimo. Mas a ruptura involuntária, a perda da cultura, da continuidade familiar, do nome das coisas, o medo, e a impossibilidade de voltar - tudo isso também deixa marcas.
Elaboração tardia e urgência presente
E isso não é só minha história. Muitos filhos e filhas de exilados, hoje na casa dos 40 ou 50 anos, estão revisitando a própria infância. Coletivos como Hijas y Hijos del Exilio têm trabalhado em vários países da América Latina para tornar visível essa experiência e dar nome ao que aconteceu (conto um pouco mais sobre isso aqui), além de se engajar nas lutas que não deixam de nos exigir ação.
E foi entrar em contato com esses relatos nos últimos anos, em encontros sensíveis e intensos com outros filhos e filhas de exilados, que me ajudou a botar pra fora a minha própria história. Pude contar da minha perspectiva de criança e ser compreendida. Pude admitir, finalmente e pra mim mesma, que sim, foi um trauma também.
Minha tendência sempre foi dizer “está tudo bem, o Brasil é maravilhoso e acolhedor”, e de fato é. Mas a verdade é que eu sempre senti uma falta enorme de poder falar das coisas da minha cultura, de ter uma família presente, e carregava aquela sensação de não pertencer a lugar nenhum (falo um pouco disso aqui). Há algo na situação de exílio que é mais do que mudar de país: é se esconder. É desaparecer, para não ser desaparecido.
“Havia uma dissipação consciente dos vestígios do cotidiano, já que, em geral, todas as evidências eram apagadas: documentos, datas, endereços. Não se usavam diários ou listas telefônicas, os nomes verdadeiros nunca eram mencionados, e detalhes pessoais não eram compartilhados nem mesmo com amigos próximos. Era preciso ter cautela com vizinhos, e nenhum detalhe sobre a família ou endereços anteriores era fornecido. Consequentemente, os laços familiares enfraqueciam ou se rompiam, pois pouquíssimas conexões eram mantidas. Todos esses elementos inevitavelmente afetam as memórias e as lembranças ao se recontar o passado.”
- Marta Cocco, pesquisadora argentina
que escreveu sobre o trabalho teatral do meu pai, Juan Uviedo
A gente precisava seguir em frente, e seguia; mas carregar isso em silêncio dói de um jeito quieto. Esses encontros me mostraram que não era só eu: éramos muitos tentando nos adaptar sem perder as raízes, e reconhecendo a necessidade de elaborar, no âmbito pessoal ou fazendo sua história virar filme, livro, livro infantil, documentário, peça de teatro. E abriram caminho para esse meu livro, que agora existe.
É uma dor específica, eu sei, e tem um recorte bem claro. Mas também acho que todos passamos por coisas assim. Por isso, mesmo quem não passou por uma situação de exílio, pode se identificar. Porque essas coisas acontecem, aconteceram, seguem acontecendo.
Hoje, quando nos aproximamos dos cinquenta anos do golpe de 1976 na Argentina, que instaurou a ditadura militar, o negacionismo volta a ganhar espaço no discurso oficial e há tentativas de relativizar o terrorismo de Estado, de equiparar crimes, de enfraquecer políticas de memória. Se aceitarmos que algo “não foi tão grave”, abrimos caminho para outras formas de apagamento. Na importante Casa Argentina, em Paris, a placa em homenagem aos desaparecidos foi removida pelo novo diretor Santiago Muzio - que aliás, postou em suas redes foto junto a Flávio Bolsonaro. Não existe problema isolado na América Latina.


Aquilo que nos ajudou a sobreviver não pode servir de argumento para minimizar a violência. Ninguém ergue estátuas equestres para quem sofreu pouco e calado. As pequenas fraturas também moldam uma vida, e reconhecer isso não é exagero. E dar nome a elas ajuda a transformar, compartilhar e lutar para que a história não se repita.
Beijo
Eva
AS COISAS TODAS…
…para saber mais: Você é filho ou filha de exilados? Além do grupo de filhos de exilados argentinos aqui, há grupos na Argentina (Hijas e Hijos del Exilio), Chile (Hijas e Hijos del Exilio Chile) e no Uruguai (Colectivo Jacarandá). Aqui no Brasil também tem o Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça (sobre ditadura, inclui exílio e afetados).
📺 … para assistir: revi “Argentina, 1985”, recomendo demais. Ainda mais depois do julgamento dos generais no Brasil pela tentativa de golpe de 2023. O filme é linear, tem uns clichês, não espere a genialidade narrativa de um “O Agente Secreto” (aliás, já assistiram? pelamor). Mas tem o mérito de mostrar com qualidade cinematográfica impressionante o que foi esse momento histórico do julgamento dos responsáveis por todo o horror. E narra principalmente o que foi o chá revelação, para a sociedade civil, do que foi esse horror.
📚 … para comprar: O livro “A Mala Vermelha” segue em pré-venda, e a data de lançamento é dia 10/3, garanta o seu. Ah! Mora em SP e quer saber do evento? Save the date: 29 de março. E siga sintonizado, em breve conto mais aqui.
Ah! Eu disse que ia falar mais do processo de fazer um livro né. Esse outro assunto acabou passando na frente, mas se você tiver interesse, publiquei um carrossel no instagram com esse conteúdo - achei que ficou bacaninha? Vem ver:
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