Coisa de pobre
Todo mundo aqui é alguma coisa, Amaury; ninguém tá aqui a toa não
Sim. Eu li o best seller. Mais do que espantada com as bobagens tão importantes dos ricos, ou deslumbrada com as distintas dimensões de grandezas financeiras, o livro me fez lembrar de cada humilhaçãozinha que recebi de alguém com muito mais dinheiro que eu. Cada pequeno e até gentil gesto de diferenciação. A gente tem que ter muita paciência com rico1.
Mas sou mesmo é assombrada pelas coisas de pobre.
Ando na função de reviver o passado, com a elaboração do meu livro; e renovar a pintura da casa. A gente precisa trocar as coisas, manter revestimentos em dia, cuidar da pele. Não se pode ser nem pobre nem velho, e taca massa corrida em tudo. Tudo isso me levou a pensar em como minhas subidas e descidas na escala social me fazem encarar esses diferentes lugares com um misto de afeto e aversão.
Ao contrário de alguns autores de autoficção, não preciso nem esconder minha origem e nem buscar validação entre as elites. Minha família pertence à mais média das classes médias, com algum capital cultural. Pais artistas, tias professoras, casa cheia de livros. O famoso intelectual durango. E como todos da minha classe, por uma série de fatores estamos sempre (involuntariamente, viu Tati Bernardi) a um passo da ruína2.
Com isso, o pior pesadelo é justamente aquilo que conhecemos de perto. Aquele descascado na parede é como um urubu pousado no galho. Que está pra nos lembrar de que basta um tropeço e a gente cai no abismo de classe, da volta à pobreza, ao ostracismo social.
PESADELOS E DELÍRIOS DE RUÍNA
Cada um tem um pesadelo, e caixas de papelão em cima do guarda-roupa são o meu. Deve ser o de muita gente. Por isso faz tanto sucesso na Shopee os organizadores de palha e os de bambu - promessa de minimalismo japonês e estilo hygge escandinavo na Vila Taquara. O aromatizador Coala que teria o cheiro igual ao da Tania Bulhões. Mil vídeos no TikTok ensinam como apagar os traços de fubanguice3 em sua casa e deixar tudo bege4. Simular coisa de rico com preço de pobre: coisa de pobre.
Tem também o terror do som da ligação constante de cobrança. Não sei como pessoas conseguem dever milhões de reais. Por aqui, atraso um dia o boleto: pronto, quinze telefonemas diários. A cada um deles fica mais distante qualquer vontade de obedecer à moça gentil do telemarketing e “efetuar o pagamento”; uma birra que tenho. Simplesmente deixo o telefone no mudo. Se for oferta de trabalho, um sorteio de automóvel, uma indicação ao Nobel, torço pra que mandem email. Gatilho com telefone tocando: coisa de pobre.
Barulho de chuva pra dormir só é relaxante se você nunca tiver morado em uma casa sujeita a alagamento5. Eu já, em várias. Quando criança, morei em uma área rural à beira do rio, sem luz elétrica e provavelmente um aluguel tão baixo que hoje penso que se fosse de graça já seria caro. Mudamos pra lá um mês antes do começo da temporada de chuvas, e logo entendi que marca na parede era aquela, a um metro e pouco do chão. Desde então tenho pavor de sapos. E pra não ter que lidar com nada parecido com um varal - que ficava cheio de pererecas - assim que pude realizei o sonho da secadora de roupa. Ficar tenso quando chove: coisa de pobre.
Aos 13 anos, uma das fases da minha vida em que fui mais pobre6, no lugar em que morávamos as paredes eram de bloco e o telhado não tinha forro. À noite, em vez de carneirinhos, podia-se contar os ratos passando. O antigo dono tinha sido cozinheiro de algum hotel chique, creio que na Ilha Porchat7. E em um móvel atingido pela enchente, havia guardado não só cadernos de receitas, mas também apostilas de etiqueta que ensinavam a organizar louças, talheres e servir à mesa. Desse período, o que mais lembro é de ficar completamente fascinada por esse conhecimento. Sentada até altas horas em uma cozinha de chão batido, aprendendo a melhor forma de ordenar as taças e os diferentes tipos de garfos e facas: de fora pra dentro, na ordem de uso.
Entendo totalmente o conforto que traz assistir a uma novela do Manoel Carlos, a séries como The Crown ou Downton Abbey, o Baile do Copa, o Instagram da Virgínia. Ou o sucesso de conteúdos como Gloria Kalil ensinando o que é ser Chic!. De certa forma aquilo me tirava da realidade que vivia e me transportava pra uma na qual os problemas eram de outra ordem: a dos talheres. E de quebra, me preparava pra uma eventual ocasião em que fosse precisar desse conhecimento. Pobre sim, constrangida nunca8. Até hoje, coleciono livros de etiqueta de diversas épocas. Escapismo: coisa de pobre.
NOSSA VILA, A AMÉRICA LATINA
Eu gosto muito de comédia stand up e meu gênero favorito é o humor de pobre. Afonso Padilha, Stevan Gaipo, Whindersson Nunes do velho testamento. Cabe ressaltar que isso só funciona se o humorista for de fato de origem humilde. Não adianta bem-nascido tentar imitar, fica feio. Tem algo que só quem viveu sabe, e nos conecta. Assuntos e palavras que delatam, como uma piscada de olho: se você riu, você é um de nós.
Sempre fiquei pensando como alguém que nasceu rico, daqueles bem quatrocentões mesmo, entenderia essas piadas. Claro que sempre tem um caseiro ou jardineiro que dá uma pista de “como vivem os pobres”; eles até sabem, mas não deve ser a mesma coisa. São outros códigos e linguagens.
Aliás, o que imaginamos como vivência latino-americana se conecta por ícones que compartilhamos a partir de uma classe social da média pra baixa. O Brasil pode até não falar a mesma língua que os países da América hispânica. Mas, se compartilha o entendimento da tragicomédia que é a vida do famoso garoto em situação de barril, a vizinha esnobe, o morador endividado, o cobrador, definitivamente somos hermanos.
É nosso lugar de conforto, de afeto, de se sentir em família. Feijão e farofa, churrasco e chinelo, música alta, gente alegre e barulhenta: coisa de pobre.
A ÍNGREME ASCENSÃO NO CAPITALISMO
Se ricos se esforçam pra parecer mais ricos, entre pobres também se disputa cada sinal de ascensão. A diferença é que aí a luta é pra se sentir menos pobre. E em geral, mais pra si mesmo. Até porque, abaixo de certa linha de pobreza, tem de fato coisas mais importantes pra se preocupar.
Mas não se enganem, entre pobres também existem hierarquias simbólicas9: quem mora em imóvel próprio vs. quem vive de aluguel; quem tem box de vidro no banheiro vs. quem usa cortina. Quem vive sem saneamento ou no conjunto habitacional. O estado do sofá, o cantinho do café, a marca do celular - tudo é signo de posição dentro da escala, ainda que a disputa aconteça no canto mais distante da arquibancada do jogo da distinção.
O gesto de trocar os potes por uns melhores, instagramar a refeição ou aplicar boiseries de polestireno é justamente um esforço pra sinalizar que se sabe circular em outros ambientes, emular sofisticação e bom gosto. Traz conforto, mesmo que o resultado seja todo confuso - e pelo que sabemos, para impressionar o andar de cima, pouco eficaz.
Não adianta renovar o enxoval na Shopee, e nem em Miami; nem tentar entrar na tendência do old money da fast fashion, e nem comprar a bolsa de grife real certificada. O jeito de ser novo-rico, com seu estilo e símbolos migrados da classe média e baixa, deixa claro que, aos olhos dos ricos de verdade, aqueles, detentores do domínio dos códigos - e mesmo para o mais progressista dos observadores (pois é!10) - sempre haverá a marca indelével: coisa de pobre11.
PARA ALÉM DA DISPUTA
Meu pai dizia que tinha feito voto de pobreza. Trabalhava atendendo pessoas muito ricas e, com o dinheiro que ganhava, sustentava seu trabalho de auxílio a pessoas em risco social. Só não abria mão estar cercado de dezenas e dezenas de livros, discos e amigos - pra mim, ele era rico à beça12. E um pouco acumulador, como eu. Traumas da pobreza.
Já eu, após muito transitar pelos cinquenta tons de cinza das variações sociais, pessoal e profissionalmente - do trabalho com documentários sobre pessoas em situação de vulnerabilidade até projetos para marcas de luxo; de comer pão velho a circular em festas privadas que custavam mais que o orçamento anual de várias cidades do Brasil -, sigo na luta, sempre buscando entender um pouco mais de onde vem as violências, pequenas ou grandes, que nos atingem.
Sem romantizar, nem mentir que me sinto bem no risca-faca e mal no bar com drinks a cem conto, e nem vice-versa. Me sinto bem (ou mal), em qualquer um dos dois. Devo isso, mais do que ao meu manual de etiqueta, ao tempo; e a uma certeza interna do que sou, e que nada pode quebrar.
Mas claro, com um pouco mais de dinheiro, melhor.
bjs,
Eva Uviedo
& as coisas todas13
“I’ve Been Poor, and I’ve Been Rich. Rich Is Better.”
Notas:
Frase do personagem Mike Connor, no filme Núpcias de Escândalo (1940).
No caso da minha família, foi a questão do boicote e exílio por questões políticas.
Descrita como “a cor da pobreza” por Romero Britto, que diz ter começado a pintar tudo com muitas cores para fugir dela. Funcionou.
Afonso Padilha falou sobre dormir com barulho de chuva aqui.
Já nem sei definir os graus de pobreza da minha vida. Se era nessa época ou quando eu morava na roça, se foi quando morei em um lugar no qual o banheiro era uma casinha - mas todas da cidade eram assim também -, se foi na época que estive com mais valores em negativo e a conta bloqueada… Será que pobreza também é relacional?
Este ano decidi passar meu aniversário na praia e cogitei me hospedar no hotel da Ilha Porchat. Poucas pessoas das que eu contei entenderam na hora a graça desse sonho. Pra quem não pescou, seria como realizar hoje o sonho de ter um Escort XR3. Significa.
Não adiantou. Na primeira vez que sentei à mesa para comer com pessoas de uma classe bem acima da minha, enfiei um troço de wasabi inteiro na boca. Sushis e sashimis não constavam nos manuais dos anos 80. Mas os bons modos me salvaram: ainda que sofrendo, descartei discretamente. Fazer auê é coisa de pobre.
A artista e comunicadora Sára Zarâ fala muito bem sobre isso no programa Precisamos Conversar, do ICL Notícias. Vale a pena assistir a toda a conversa.
O coro dos falidos reclama quando vê um endinheirado com mau gosto: no fundo estão dizendo “eu saberia melhor o que fazer com esse dinheiro”.
No metrô, às 8 da manhã, uma bolsa LV é sempre falsa - mesmo que seja verdadeira.
Adjetivo. ter riqueza ou grandes posses; abundantemente suprido de recursos, meios ou fundos; rico. um homem rico.
AS COISAS TODAS
📺 PARA ASSISTIR:
Charles Cosac na Casa Vogue - o rico que amamos.
Como arrumar os talheres se você for comer na praça de alimentação.
🎨 À VENDA: Colecionar arte é chique, e está ao alcance de todos, repassem. Quer ver as artes que tenho disponíveis? Criei dois catálogos com contatos diretos, ambos com descontos especiais.
Trabalho sobre papel e louça - aquarelas, colagens, pinturas em pratos e reproduções (fine art e pôsteres).
Telas e painéis - trabalhos de pintura acrílica sobre tela ou MDF. A ficha acompanha todas as informações necessárias: título, série, técnica e dimensões.
P.S.: Desculpem o conteúdo tão confessional, prometo melhorar.








Eu to tentando encontrar uma coisa maneira pra comentar mas to engatilhado num grau que precisarei de um tempo pra digerir [vou entrar no ônibus, volto já]
maravilhoso, Eva. me identifico com sofá velho e o pavor de telefonema.