Lá vamos nós: A Mala Vermelha
Um anúncio importante e há muito tempo esperado; o livro infantil que escrevi sobre exílio entrou em pré-venda
UPDATE: o lançamento em SP vai ser no dia 29/03 das 15h às 18h na Livraria da Vila (rua Fradique Coutinho, 915 - Vila Madalena). Espero vocês lá!
Oi amizades,
depois de muito tempo discorrendo aqui sobre o processo, a pesquisa, memória e silêncio, esse é um anúncio gostoso de escrever: o livro está no mundo.
Simmmm, A Mala Vermelha, livro para crianças a partir de 6 anos que escrevi e ilustrei, já está na gráfica e entrou em pré-venda pela Companhia das Letrinhas.
E isso ser uma realidade ainda me soa um pouco estranho, porque começa muuuito tempo atrás, como tentativa de colar os cacos de uma narrativa fragmentada, um trauma que não é só meu, mas também geracional e histórico, e que atingiu muitas famílias da América Latina (falo um pouco sobre isso aqui). Nasce de uma lembrança da infância, do período em que meus pais e eu saímos da Argentina por causa da ditadura. Sempre quis tratar desse tema através da arte; e só consegui agora, dessa forma.
É uma ficção baseada em fatos, pensada a partir do ponto de vista da criança que eu fui. Fala de exílio, deslocamento e perda, mas também de imaginação, sobrevivência e invenção de uma nova vida.
Uma coisa louca é que às vezes os traumas não parecem traumas. Então achei importante elaborar tudo com uma certa leveza. A opção pelo livro infantil não foi para suavizar a história; mas sim uma escolha de perspectiva.
Fatos & fotos
No #TBT desta quinta-feira, publiquei no Instagram um vídeo com imagens da minha família misturadas com ilustrações.
Pensei muito antes de abrir essa caixa de fotos assim. Me expor. Mostrar minha mãe, minha vó, minhas tias, cenas de infância. Meu pai, transgressor, revolucionário, anarquista, de pijama.
É que, embora a narrativa seja ficcional, senti que era importante contextualizar e oferecer um chão pro leitor, como uma forma de preparar o encontro com o livro, e criar uma escuta mais atenta, criar interesse.
E também uma boa forma de celebrar o anúncio da pré-venda; fazendo um brinde com eles, participantes dessa história.
Como nasce um livro infantil?
Ao longo dos últimos textos aqui, fui contando aqui. Escrevi sobre minha paixão por picture books e a importância do silêncio na narrativa, sobre a febre da autoficção e a construção da memória, a problemática de crescer no exílio e até minha tortuosa vida cambaleando entre classes sociais por conta desse desterro.
Neles tentei destrinchar as perguntas que deram início ao processo de criação: Como ilustrar o que foi silenciado?
Esse projeto começou a surgir há uns três anos. Teve como inspiração um vídeo que assisti no You Tube, uma conversa entre os autores e ilustradores Sebastián Santana Camargo e Bernat Cormand, e que me deu o estalo: essa história que estou querendo contar pode vir ao mundo assim. Faz sentido: uma história de criança para criança.
A partir de agora, vou falar dele de forma mais direta. Quero compartilhar processos, rascunhos, escolhas que ficaram pelo caminho, dúvidas que apareceram e a ajuda que tive para chegar à versão final, que vai desde a leitura crítica até conversas com a equipe de arte da Companhia das Letrinhas.
Isso porque vejo que algumas pessoas têm curiosidade de entender como se constrói um livro infantil e, quem sabe, um dia escrever ou ilustrar um. Algo que eu incentivo completamente, é muito legal de fazer.
É um universo que venho tateando nos últimos anos, cada vez mais perto da autoralidade, até que, por fim, cheguei a um resultado que não poderia ser mais eu. E ao mesmo tempo de uma forma que outras pessoas possam se identificar.
Por que falar disso agora
Porque de novo, e ainda, é importante falar de ditaduras e regimes totalitários em contexto da América Latina. Por viver em um mundo em que deslocamentos forçados, guerras e migrações seguem moldando infâncias todos os dias. E é uma questão de direitos humanos. Nomear apenas não resolve, mas ajuda a lançar luz sobre uma questão que sempre atingiu as crianças e que, muitas vezes, ficou em segundo plano, escondida atrás do enorme sofrimento e luta dos adultos. Mas é real, existe e se perpetua, enquanto não for encarado como o problema que é.
E porque fala de futuro, e um futuro com esperança. Vai ficar mais claro quando vocês tiverem ele em mãos. Acho que a gente precisa muito desse olhar.
Em suma: é um ponto de partida, e quero que essa conversa continue em movimento. Conto com vocês.
com carinho,
Eva
P.S.: Vai ter evento de lançamento, e assim que eu tiver a data aviso todos vocês, via newsletter, redes sociais, pombo correio se precisar. Quero todo mundo lá!
E a pré-venda é uma forma concreta de acompanhar o começo da vida do livro e ajudar a ampliar seu alcance desde já. Se quiser e puder, deixo o link:
🧰 Pré-venda A Mala Vermelha
(Companhia das Letrinhas)
https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786554851770/a-mala-vermelha
AS COISAS TODAS…
📚 PARA LER: Selecionei alguns livros que dialogam com temas de exílio, migração, guerra e ditadura e que, de diferentes formas, me acompanharam nessa pesquisa (são só alguns de muitos, vou trazendo aqui aos poucos):
Sapos de Otro Pozo - Cartografía colectiva de las infancias en el exilio. O projeto nasceu de uma convocatória do coletivo argentino Hijas e Hijos del Exilio e reúne mais de cem relatos, cartas, fotografias e produções artísticas de quem cresceu fora de seu país por causa das ditaduras dos anos 1970 e 1980 em diferentes países da América Latina.
Meu tio chega amanhã, de Sebastián Santana Camargo, artista, autor e ilustrador argentino-uruguaio, também nascido no exílio. O conheci em Montevideo, na incrível Feria Microutopias de publicações independentes e virei fã logo de cara. Meu tio... saiu no Brasil pela Livros da Matriz, da Dani Gutfreund, grande pesquisadora de livros-álbum (ou livros ilustrados), com quem fiz uma consultoria fundamental (conto mais aqui).
Migrant, livro premiado escrito por Maxine Trottier e ilustrado por Isabelle Arsenault. A história acompanha a pequena Anna que viaja desde o México para o norte com sua família para trabalhar na lavoura, e descreve com delicadeza como é ser criança em uma família de imigrantes.
📺 PARA ASSISTIR:
Livros perturbadores? Para quem? A conversa com Bernat Cormand e Sebastián Camargo Santana sobre a importância de obras que provoquem reflexão política e social, temas que podem parecer inapropriados para crianças, mas que são parte fundamental da vida e da formação crítica de todos nós.
VEJA MAIS
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Eva, que feito extraordinário! que presente pro mundo esse projeto teu!
Que desafio recuperar sua perspectiva de criança, abordando com a linguagem da leveza uma travessia tão densa. É um grande feito, parabéns desde já!